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IoT SEM BATERIA: ENERGIA DO AR, DADOS SEM LIMITES

Sensores que colhem energia do ambiente já transformam o mundo lá fora — mas o Brasil ainda não surfou essa onda.

A ideia de eliminar a bateria como ponto de falha do IoT já deixou de ser conversa de laboratório isolado e virou infraestrutura de pesquisa coordenada. Na União Europeia, o projeto EnABLES — financiado pelo programa Horizon 2020 e coordenado pelo Dr. Giorgos Fagas, do Tyndall National Institute, na University College Cork (Irlanda) — reúne pesquisadores para tratar a vida útil da bateria como decisão de projeto desde a concepção do dispositivo, não como problema a resolver depois

Esse movimento tem formato de consórcio industrial, não de startup isolada. O projeto CORRELATE, financiado pelo imec via seu programa de inovação ICON, coordenado pelo Prof. Danny Hughes (grupo DistriNet, KU Leuven) e com participação do IDLab MOSAIC (Universidade de Antuérpia), reúne também empresas — AGFA Healthcare, Televic Rail, PsiControl e QuickSand — em torno de um objetivo específico: viabilizar dispositivos IoT sem bateria mantendo qualidade de nível industrial, não apenas de protótipo de bancada. O projeto está em execução entre abril de 2025 e março de 2027.

O tema também já tem comunidade técnica formal se organizando ao redor dele: a IEEE Smart Cities mantém a trilha técnica Greentronics, dedicada a eletrônica sustentável para futuros urbanos, com encontros regulares (ciclo GreenBIT) tratando de eletrônica de baixa energia e sustentabilidade. Comunidade técnica formal se organizando em torno de um tema é, historicamente, um dos sinais mais confiáveis de que ele está saindo da fase de curiosidade científica.

A ESCALADA DE PASSIVOS AMBIENTAIS

78 MILHÕES DE BATERIAS DE DISPOSITVOS DE IoT DESCARTADAS DIARIAMENTE NO MUNDO ATÉ O ANO DE 2025

O QUE AINDA É RUÍDO (MESMO LÁ FORA)

Mesmo nos mercados mais avançados, é preciso separar o que já é fato do que ainda é enquadramento otimista demais. A captação de energia de radiofrequência ambiente — usada para justificar boa parte do discurso de "sem bateria para sempre" — continua entregando potências na faixa de nanowatts a microwatts, insuficiente para praticamente qualquer sensoriamento contínuo além de identificação passiva de baixíssimo consumo.

Vale também desconfiar de qualquer material que trate "sem bateria" como sinônimo de "sem armazenamento de energia". A esmagadora maioria dos protótipos válidos combina captação ambiente com um supercapacitor ou uma microbateria de apoio — o que elimina a troca periódica de bateria, mas não elimina a necessidade de gerenciar energia de forma ativa dentro do dispositivo.

AS EVIDÊNCIAS DO MOVIMENTO REAL

Quatro evidências verificáveis sustentam que este não é apenas discurso de inovação:

1. Política de pesquisa com nome e instituição:

O documento de posicionamento do EnABLES (financiamento Horizon 2020, coordenação do Tyndall National Institute/UCC, Irlanda) projetou que até 78 milhões de baterias de dispositivos IoT seriam descartadas globalmente por dia até 2025 caso o design dos dispositivos não mudasse — dado usado para justificar investimento público direcionado ao tema.

2. Consórcio industrial com objetivo de qualidade de produção:

O projeto CORRELATE (financiamento imec/programa ICON, coordenação KU Leuven, participação da Universidade de Antuérpia e de empresas como AGFA Healthcare e Televic Rail, Bélgica, 2025–2027) tem como objetivo declarado otimizar o consumo de energia de sistemas IoT industriais por ativação seletiva de dispositivos e controle de coleta de dados, mantendo qualidade de nível industrial — não apenas de protótipo de bancada.

3. Validação acadêmica com aplicação nomeada e publicação revisada por pares:

Pesquisadores da Atlantic Technological University (Irlanda), com financiamento do programa RISE@ATU (cofinanciado pelo governo irlandês e pela União Europeia via ERDF), desenvolveram um sensor vibracional autoalimentado por nanogerador piezoelétrico flexível — combinando oxicloreto de bismuto (BiOCl) e o polímero PVDF —, publicado no Journal of Power Sources, com aplicação demonstrada em um sistema de segurança residencial sem fio e potencial declarado para monitoramento de saúde estrutural.

4. Sinal de mercado, com ressalva de vintage:

Relatórios da IDTechEx sobre captação termoelétrica e captação de alta potência off-grid projetaram, em 2016, mercados superando US$ 1 bilhão até 2026 e US$ 7 bilhões até 2027 — números hoje desatualizados (a própria IDTechEx já revisou a previsão termoelétrica para além de 2032). Como sinal mais atual, estimativas recentes de mercado (Grand View Research, 2025) situam o mercado de sistemas de energy harvesting em cerca de US$ 700 milhões em 2025, com projeção de crescimento a um CAGR de 11,8% até 2033 — números de firma de pesquisa de mercado generalista, com menor rigor metodológico que um relatório especializado, mas mais atuais.

Situando isso no Radar de Horizontes: o tema está em H1 — Sinal Emergente, com sinais concretos de transição para H2 — Validação Global. Há investimento público coordenado, consórcios multi-institucionais e pilotos acadêmicos com aplicação nomeada — mas não encontramos, nas fontes que consideramos isentas de interesse comercial direto, um caso de operação em escala com ROI documentado fora de nicho, o que impede classificar o tema como H2 pleno por enquanto.

POR QUE AINDA NÃO CHEGOU AO BRASIL

A distância não é sobre capacidade técnica — grupos de pesquisa em materiais, MEMS e sistemas embarcados já existem no país. A distância é de arquitetura de fomento e de escala de mercado.

A União Europeia orquestra esse tema por meio de financiamento supranacional coordenado (Horizon 2020/EnABLES), reunindo institutos e universidades de vários países em torno de uma agenda única de pesquisa em energia para IoT. O Brasil não tem, hoje, um equivalente direto dessa coordenação nacional específica para energy harvesting — o financiamento via FAPESP, Finep ou Embrapii existe, mas de forma dispersa entre grupos e editais, sem um programa guarda-chuva dedicado ao tema.

Comparar diretamente os dois contextos seria injusto: a escala de mercado de componentes de baixíssima potência que justifica manufatura local na Europa ainda não existe no Brasil, e isso é uma questão de tamanho de mercado e cadeia de suprimentos — não de atraso tecnológico.

JANELA DE PREPARAÇÃO - BRASIL

Dois setores brasileiros devem começar a observar este radar com atenção redobrada:

[✓] Agricultura de precisão em áreas remotas — onde o custo logístico de trocar bateria de sensor de solo e microclima já pesa na operação, e onde ganhos de captação solar/vibração têm aplicação direta.

[✓] Operadores de infraestrutura crítica (pontes, dutos, redes elétricas) — o caso de monitoramento estrutural autoalimentado da Atlantic Technological University mapeia quase diretamente para esse uso, e o Brasil tem estoque relevante de infraestrutura envelhecida que já demanda sensoriamento contínuo.

O que essas organizações deveriam começar a fazer agora, antes de qualquer adoção plena: mapear o custo real de manutenção por troca de bateria como métrica de base (é difícil justificar substituição futura sem saber o custo atual); e iniciar diálogo com grupos de pesquisa nacionais em materiais e MEMS já ativos, mesmo que ainda não haja produto brasileiro pronto para uso.

Sinais de alerta que indicam abertura real da janela de ação: o primeiro piloto industrial nacional documentado publicamente; a entrada de um fabricante de componentes de energy harvesting operando no mercado brasileiro; ou qualquer manifestação regulatória brasileira tratando esse tipo de dispositivo como categoria própria de homologação — não localizamos, até o momento desta edição, sinal público de que isso já esteja em pauta.

Quem pode aguardar com segurança: operações cujos pontos de sensoriamento já têm energia de rede disponível no local. Ali, o problema que o IoT sem bateria resolve — logística de troca de bateria em local de difícil acesso — simplesmente não existe.

O CUSTO DE CHEGAR ATRASADO

O risco de ignorar esse radar não é ficar tecnologicamente para trás — é continuar pagando o custo operacional de troca de bateria como se fosse inevitável, enquanto operações em outros mercados começam a reduzir esse custo estruturalmente. Quem começa a mapear o problema agora — mesmo sem solução pronta para comprar — chega à janela de adoção real sabendo exatamente onde aplicar a tecnologia e com que prioridade, em vez de decidir sob pressão.

MODELO ANTIGO

A Bateria é Um Insumo Inevitável – O design do dispositivo assume a bateria como um acessório substituível. Manutenção periódica é aceita como custo fixo da operação de IoT

NOVO PARADIGMA

Bateria é Uma Falha de Arquitetura – A vida útil da energia é uma decisão central de projeto desde a concepção (Tyndall/UCC). O foco muda de “gerenciar trocas” para “eliminar o ponto de falha”

O Ponto Contra-Intuitivo Global

O verdadeiro obstáculo do IoT sem bateria não é a captação de energia em si.

É o modelo de manutenção construído em torno da troca periódica de bateria — e a inércia de projetar dispositivos pensando na bateria como acessório substituível, não como decisão central de arquitetura desde o primeiro rascunho do produto.

[✓] O mundo já está em: H1 avançando para H2 — pesquisa coordenada, consórcios multi-institucionais, escala industrial ainda não comprovada fora de nicho.

[✓] O Brasil está a: sem sinal público de piloto nacional equivalente — distância explicada por ausência de coordenação de fomento dedicada, não por atraso tecnológico.

[✓] O maior risco de esperar: manter o custo de troca de bateria como padrão operacional enquanto outros mercados o reduzem estruturalmente.

[✓] Sinal a monitorar: primeiro piloto industrial nacional documentado ou entrada de fornecedor de componentes de energy harvesting no Brasil.

[✓] Quem deve começar a observar agora: agricultura de precisão em áreas remotas e operadores de infraestrutura crítica.

[✓] Quem pode aguardar: operações com energia de rede já disponível no ponto de sensoriamento.

O FBIoT existe para transformar complexidade tecnológica em decisão estratégica — inclusive antes que ela vire urgência.

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Menos Surpresa. Mais Antecipação

Conclusão

FONTE

• CORDIS (Comissão Europeia) — "Up to 78 million batteries will be discarded daily by 2025, researchers warn" (projeto EnABLES, Horizon 2020, coord. Tyndall National Institute/UCC, Irlanda): https://cordis.europa.eu/article/id/430457-up-to-78-million-batteries-will-be-discarded-daily-by-2025-researchers-warn

• DistriNet Research Unit, KU Leuven — página oficial do projeto CORRELATE (financiamento imec/ICON, 2025–2027, promotor Prof. Danny Hughes): https://distrinet.cs.kuleuven.be/projects/CORRELATE

• Atlantic Technological University (Irlanda) — "Researchers develop battery-free smart sensor for structural health monitoring" (28 jul. 2026, financiamento RISE@ATU/ERDF, pesquisa publicada no Journal of Power Sources): https://www.atu.ie/news/researchers-develop-battery-free-smart-sensor-for-structural-health-monitoring

• IEEE Smart Cities — trilha técnica "IEEE Greentronics: Sustainable Electronics for Smart Urban Futures": https://smartcities.ieee.org/about/technical-tracks/ieee-greentronics-sustainable-electronics-for-smart-urban-futures

• IDTechEx — "Thermoelectric energy harvesters to reach over $1 billion by 2026" (publicado em 2016; dado histórico, citado com ressalva de vintage no texto): https://www.idtechex.com/en/research-article/thermoelectric-energy-harvesters-to-reach-over-1-billion-by-2026/9227

• Grand View Research — "Energy Harvesting System Market Size Report, 2026–2033" (estimativa de mercado mais atual, usada como contraponto ao dado histórico da IDTechEx): https://www.grandviewresearch.com/industry-analysis/energy-harvesting-system-market

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